domingo, 21 de maio de 2006

Cheiro de cravo

Estou com a cabeça abaixada, escrevendo. Mas sei que você está aqui. Eu sinto. E sei que não está só. Um arrepio corre minha espinha, meu olho fica turvo, sinto frio. Não há absolutamente nada que eu possa fazer. A não ser esperar.

Encosto na mesa, de costas para o público, tentando me esconder de vocês e do mundo. Mas sinto seu cheiro de cravo bem perto de mim. Não olho. Ouço sua voz e enterro a cabeça no chão, tal qual um avestruz.

Vocês não riem e acho isso bom. Eu também não rio, faz tempo que eu não rio. Mas minha posição não é para risadas mesmo.

"Oi, tudo bem? Tinha me visto?", você diz. "Não." Reduzo tudo a um "não". "Você está melhor?" "Sim", respondo. Mas é claro que não.

O pessimismo é algo que pode ser cultivado. Como uma plantinha no jardim. Venho regando a minha diariamente, faz uns bons meses. Uma de minhas flores é a dor. Para alguns, ela vem acompanhada de lágrimas. Para mim, é uma dormência que invade e fica.

Me afasto para dar uma olhada em vocês. Sinto vertigem e enjôo. Sei que hoje, pelo menos hoje, tenho de seguir com a cabeça abaixada escrevendo minhas pequenas impressões. Saio para caminhar. Como está frio. Sou a própria geleira na multidão fervente.

Sei que mais tarde, em casa, vou chorar. Talvez não consiga dormir. Não será a primeira noite. Nem a última. Assim a vida segue. Barulhenta e longa.

2 comentários:

Juli disse...

Lindo. Tocante. Triste.
Mas espero que não seja real...
Que você não precise ser como Pessoa: fingir que é dor a dor que deveras sente...

Beijos

Creco disse...

Muito bom o texto, mas torço pra que não seja tão real. Gostei muito. Queria escrever assim, dá até inveja.

Abraço do Clebão.