segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Liberto

Livro-te. Liberto-te

E tu me prendes, por favor

Tu me absorves, inteiro

Pois era fim do que era antes

E é início do que é livre

Liberto

Infinito em ti e em mim

Nosso mundo em nós

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Impublicável

Não lerás uma linha aqui

Só a que diz pouco

Só onde fiz nada

O muito eu guardo

O muito aguarda

Não lerás uma linha aqui

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Grito

Meu arrepio, minha incerteza, meu medo
Tudo que antes fora segredo
Vira esse enorme mar de secura
Causa agora essa imensa loucura
Faz do oco esse peito cheio
Chega a tremer, beira o desespero
Mas sacode de alegria. E grita
E grita
E grita
E como grita!
Da janela minhas flores dançam
Da sacada minha mente avança
Do fundo da alma... chamo-me esperança

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Incondicional

Se houvesse mágica, eu diria três ou quatro palavras e me colocaria aí dentro.

Se houvesse lógica, você veria que minha entrega é incondicional, e me aceitaria.

Mas não há mágica ou lógica no amor. Nele, o certo perde o sentido. O erro vira acerto.

O pulsar vale mais que o pensar. A fase é essa: eu pulso, você pensa.

E se eu parar pra pensar? E se você resolver não pulsar? Não há mágica.

O mundo continuará a girar. Eu seguirei sendo seu guia. Como sempre. Desde sempre. Você vendo ou não.

Mas a mágica pode simplesmente virar lógica. Aí, como num quebra-cabeça, cada peça se encaixará. E fim. Começo.

Oração de coração

Entrego-te esta oração
Deito a mão no teu colo sagrado
Seco a dor e teu pranto
Calado


Entrego-te esta oração
Ilumino seu dia, ensolarado
Guio o passo e teu vôo
Alado

Cuido para que o mar
Outrora bravio, agitado
Vire teu remanso
Cubra-te de paz
Faça seu milagre salgado


Entrego-te esta oração
Vago por seu mundo adorado
Curo a ferida e tua chaga
Passada


Entrego-te esta oração
A luz de um clarão inesperado
Vento forte no teu corpo
Morada


Cuido para que o céu
Outrora negro e carregado
Faça tua alma levitar
Ergua-te ao infinito
Faça de ti anjo imaculado

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Como o céu

Como o céu que muda de cor quando encontra o mar
Como a nuvem que se abre para o avião passar
Como a flor que se aviva com a chegada do verão


Como o mel e o zangão
A onda e a areia
A tribo e a aldeia
O arroz e o feijão


Como o fogo e o vulcão
A rima e a poesia
O amor e a euforia
O sagrado e a oração


Você é meu complemento
Minha fome, meu alimento
Minha transfiguração

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Desta vez

Eis que você aparece
Do nada, como sempre
Sem lenço, sem talvez
Tomara que desta vez
Não misture minhas vestes
Não revire meus acertos
Não desvire o que é certo
Tomara que desta vez


Eis que você aparece
Assim toda, oi, querido
Assim, tenho novidades
Tomara que desta vez
Você venha bem sozinha
Esteja toda atrevida
Venha pronta para mim
Tomara que desta vez


Que seja a última
E a primeira
A inaugural
A derradeira
O ponto final
E a partida


Mas que nada fique parado
Nem o sujo, nem o imaculado
Nem o limpo, nem o rasgado
Nem o próximo, nem o acabado
Que se mova o que era algo
Que se viva o que era farto
Que se morra o que era salvo
Tomara que desta vez

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

A sós

Te dispo
Te visto
Te miro
Te finjo
De minha

Te risco
Te pisco
Te brinco
Te finjo
De nua

Minha força de viver
Minha fome de comer
Minha vida de viver
Vida de ser com você

Agora eu deito
e durmo
e sonho
e ronco
e sonho
e vivo
só pensando em te ter por perto

Agora eu leio,
aprendo,
releio,
rolo,
revejo
e vejo
que só há você por perto

Sonho de ser eu
Dia de sermos nós
Vida que virou
Assim
Nunca mais a sós

sábado, 6 de janeiro de 2007

Eu sonho

Encaixa seu corpo em minha alma, me acalma
Abraça meu braço, eu te mostro como faço
Traz seu olho pra brincar de ficar sério
Despe meus mistérios, muda meus critérios
Entra por aquela porta, nossa morada

Sorri sua risada de mar agitado, minha onda
Deita nessa teia, me levanta, me levanta
Traz seu olho pra mirar meu ser inteiro
Despe meus critérios, cria seus mistérios
Entra porque eu me importo, eu sonho

Acaricia meus cabelos
Dá a mão pra eu apertar
Acaricia meus ventos
Dá a mão pra eu te levar

Se enrola em meus dedos
Abre a boca quando beijo
Se enrola em meus jeitos
Fecha a boca com desejo

Quem diria que assim
Assim meio sem querer
Pouco antes de amanhecer
Nova vida iria nascer...

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Acento

Escrevo sem acento pois me dou por vencido
Esta maquina aqui nao tem traco
Nao tem crase
Nao tem nem o mais simples
Grave
Nao tem nem exclamacao
Grave bem

Entao dialogo sem travessao, sem aspas
Numa labia que se arrasta sem pontuacao
Numa eterna afirmacao
E ainda ha mais faltas

O que somos com a ausencia de interrogacao
O que somos sem os infimos acentos

Apenas um emaranhado sem sentido
Uma frase atras da outra

Coisa solta

Coisa tola
De impossivel traducao

Escrevo sem acento em minhas maos
Sou peito oco a bater sem coracao
Tenho alma escura, sem transparencia
Vivo enfileirado, surdo, mudo, cego

Sem aspas, sem travessao

Esta eterna reticencia

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Fim

Parece o fim dos tempos
Mas chega assim o vento
Age como ungüento
Subverte o que era fim
Afasta todo o tormento
E faz próximo o momento
De pensar: ainda é tempo

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Voar

O avião foge de você e me leva pra onde não quero ir
Voa alto, eu vôo alto, faz tempo ninguém quer me ouvir
Cadê aquele pedaço de chuva
Que cobria nossas roupas, revelando tudo em nós

O avião sai daqui e ninguém há de imaginar
Que quando eu vim para cá eu pensava em apagar
Me fui, mas volto de onde parei
Daquele pedaço de solo, do beijo que eu nunca dei

Não anoitece esse sol que é meu despertar
Não diz pro mundo mudar, ele é nosso estar
Mas aqui, assim, dentro do avião
Sonho que o sonho me leva pro seu coração

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Hoje

Hoje lembrei daquele primeiro amor
Era ela tão pura e tão segura
Era eu tão impreciso, tão indeciso
E assim se deu... eu a chorar, a não ir

Hoje lembrei que décadas se foram
Eram tão puras e tão seguras
Era eu tão impreciso, tão indeciso
E assim fiquei... eu a mudar, e não sair

Hoje lembrei que o tempo não voltará
Éramos tão puros e tão seguros
Éramos precisos, decisivos
E assim mudei.. eu a voar, e não partir

Hoje notei que daquele primeiro amor
O quanto de mim que ficou, passou
E agora eu preciso, ainda que impuro
Assim decidir... eu a rir, ou te manter aqui

Cedo

Chego em casa cedo, quase sem falar
O coração na mão, e um copo de vinho
No mundo, nunca mais ficarei no chão

E ainda que a lógica insista em negar
Nunca mais cairei, nunca sangrarei
O sol da janela me diz: saia daqui

Eu abro o armário, dobro o roupão
Viro o disco, aceito dançar a canção
E assim, sem contar, tudo se vai

Como o amor do refrão, que vem dizer
Que vale a pena viver sem sofrer
Ainda que o peito teime em doer

Pois estou aqui só pra contrariar
Caio do barranco e insisto em ver
O mar está ali pra me acolher

Azul em reluzir, ondulando o tempo
Mas o vinho nesta taça já não basta
Pra essa loucura sem defeito

Transfigurando a ida em vinda
Sem jeito quando chego em casa
Eu cedo, quase sem falar

sábado, 16 de setembro de 2006

Puta

A puta da esquina não é mais puta
Ela tem uma bolsa e uma blusa roxa
Pinta o olho de azul e pisca um olho
Ainda se lembra de brincar de roda
Ainda pensa que esta vida é foda
E espera algum dia sair dali

A puta da esquina não é mais puta
Não frequenta clubes da elite
Não se lava com coca e whisky
Beija no máximo três por noite
Se arrepende por algumas dores
E ainda sonha com o mundo melhor

Na frente da puta passam putas
Fedendo a sexo e a tormento
Eles querem fingir que o que há dentro
Que o que há dentro é só fingimento
Só que a puta não liga, ela sorri
A puta da esquina é a melhor daqui

A puta da esquina não é mais puta
Ela é uma santa deste mundo torto
Fez pacto com a luz pra andar direito
Quando acende o cigarro e traga o vento
Pensa só que as putas, as de verdade
Gritam, gemem e choram com sinceridade

Viver

Vim

Pra não morrer
Pra não morrer
Pra não morrer
Pra não morrer

Ainda
Quis

Reencontrar
Reconhecer
Recomeçar
Reinventar

Ainda
Disse

Pra te maldizer
Teu maldizer
Teu mau sabor
Teu mau amor

Calado
Fui

Sem chorar
Sem lamentar
Sem lembrar
Sem viver

De novo
Vim

Pra não morrer
Pra não morrer
Pra não morrer
Pra não morrer

Ainda
Assim


Morro
Morto
Morto
Morro

Assim
E fim

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Antes, agora

Meu filhote me faz sorrir, quando estou assim tão mal
E não há vento que passe aqui, que me faça desistir
De seus beijos, de seu pêlo, de você a me abraçar
Pois a chuva, eu sei, um dia vai passar...

Vem e chora e pula em mim, este amor incondicional
O sol bate em meu corpo e aí, eu me vejo resistir
De toda dor, de todo ardor, nasceu pra me salvar
Já que o escuro, eu sei, eu dia vai clarear...

Diz que me ama, ninguém há de duvidar
Fala do seu jeito, torto de me amar
E mesmo que digam que o amor tem partida
Que a força há de secar...

Antes, agora, o mundo se abrirá
Antes, agora, meu mundo é seu estar

sábado, 9 de setembro de 2006

Tá, vai dizer que é pra ser sofrido

Você nem limpou o sangue de outrora e já vive de manchar outra aurora, sequer deixou cicatrizar o coração, mas insiste em contrariar a razão

Tá, vai falar que é culpa da sorte

Chora pelos cantos, fala que é ruim, reclama do céu, como se fosse assim, diz que o sol é forte, que a chuva molha, mas em casa só se deita, disfarça e chora

Tá, vai correndo maldizer a vida

Como se não fosse você sempre a razão, como se não fosse sua cada nova decisão, vai, se esconde irmão, que assim lhe escapa a vida, morre o amor e a sorte acaba enfim

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Mulher

Jamais haverá mulher como aquela que havia
Cuidava de mim de noite, amava sem fim de dia
Me afagava na cama, no banho ela me ardia
E mesmo sem haver chama, o fogo não se extinguia
Comia sem sal e amava, amava meu gosto de sal
Do som de um vinho aberto, ela fazia especial
Zelava pelas suas rosas, banhava de flor o mal
Transfigurava o opaco em brilho celestial
Mas eis que voltaram nuvens, eis que choveu aqui
E ela, já tão entregue, quase não me viu partir
Chorou o seu choro limpo, limpou seus olhos de atriz
Fez da vida seu rumo, fiz da vida o que bem quis
O vinho ainda esquenta o fogo que se extinguia
O banho ainda lava este ventre que nos ardia
Mesmo a noite dorme à espera de um novo dia
Mas jamais haverá mulher como aquela que havia

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Beijo

Um beijo pode ser um beijo
Uma troca de cor
Um alento pra dor
Um início de amor
Minha boca na sua
Alma ficando nua
Língua a roçar sem medo
Uma troca de segredos
Início de algo maior

Ou pode ser só um beijo
Pode-se ser um beijo e só