segunda-feira, 14 de março de 2011

Lua

Pouco me importa saber da lua

Hoje ela é meia, amanhã completa

É como a vida que escapa crua

Como o ventre da mulher nua

É clara um dia, o outro secreta


Pouco me importa saber do céu

Queima o dia, doura a tarde

Transforma o mundo num véu

Faz um doce num dia de fel

Me dói gosta também me arde


E pouco me importa o ontem

Que se ontem fosse hoje seria

Amanhã e desde sempre haveria


Pois sendo hoje há de haver

Desde que o céu é lua

Desde que o sol é dia

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Seu amor meu

Ser feliz é isto:
Ver que se perdeu
A dor de Brel

O ódio de Céline
A raiva de Rubem
A dor de Chico

Tudo isso morreu

Ser feliz é isto:
Dormir piemonte
Acordar pirineus

O
calor de Roberto
O torpor de Charlotte
O tesão de Vinícius
É o seu amor meu

E o seu amor meu
E o meu amor seu
E o seu e o meu
Amor

domingo, 21 de novembro de 2010

Que assim seja

Se seus olhos
Olhassem meus olhos

Desde agora
Até o momento do fim

Pedindo abrigo
Pegando fogo

Eu juro que iria correndo
Eu juro

Faria do mundo um lugar
Onde só existisse
Uma coisa

Que seria amor
Pois que seja


E se sua pele tocasse
Para sempre a minha

Como agora
Enroscada em mim

Suando junto
Pegando fogo

Eu correria ainda mais
Eu juro

Faria desta casa um lugar
Onde só existisse
Amor. E seríamos
E que assim seja

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pra você me domar

Feito bicho acuado
Me tranco na toca
Me aqueço com fogo
E mostro as garras

E às três da manhã
Eis que algo chama
Só pra me avisar
Que você não volta

Vem um leve desapego
Seguido de alguma dor
Vem uma baita febre
Seguida de pavor

Mas aí já é tarde
Pois o fogo me toma
E feito bicho acuado
Uso minhas garras

Dilacero seu peito
Trituro sua carne
Bebo todo seu sangue
Até me sentir farto

E depois me entrego
Ainda sujo e dopado
Sentindo um leve asco
Pra você me domar

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Eu quero tudo

Porque eu quero tudo
E de meio, não preciso
Porque eu sinto tudo
E calado, não consigo
Nada me cala, sabe
Sabe, às vezes grito

Faço tudo pois sinto
Pois me arde aqui
E se é difícil entender
Eu simplesmente repito
Eu quero tudo, tudo
De meio, não preciso

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Setembro

Setembro chegou, setembro
Então lembre de uma voz
Que te grita, que te move
Setembro chegou, sedento
E ninguém sabe ao certo
O que virá depois, porque
A vida é bem maluca
E eu sou bem maluco
E a cartomante, lembra
Ela disse que setembro
É o tempo, eu te lembro
De toda essa porra mudar
Em tempo

terça-feira, 13 de julho de 2010

Que te move

Que te basta
se não amor

Que te ri
se não cor

Que te cala
se não dor

Que te prende
se não calor

E tudo mais
naquilo que
pode haver

Que te move
que te morre
que te mantém

Vivo

sábado, 10 de julho de 2010

Dormência

Em alguns dias somos pó
Retratos da indecência
Sai o Sol, esquenta a pele
E ainda assim, no calor
Há um gelo que atormenta

Porque a cabeça lhe pesa
Os ombros lhe doem
E o insípido dessa vida
Com o perdão: lhe fede

Mas creia, mesmo assim
Nesse dia descartável
Pode surgir um sorriso
Uma voz nesse penhasco
Um cheiro de corpo quente

Eis: revela-se o improvável
E um olhar de alma inteira
Que arrebata a treva toda
Sem perdão algum lhe rende

Torna, então, o dia podre
Em que éramos um pó
No cúmulo da decência
Barra nuvens, abre o Sol
Doura a vida, cora a pele

E ensopa o coração, pois
Esse gosto, quero sempre
E vontade, haverá sempre
Tudo sou nessa dormência

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cílios

Cílios são flechas miradas ao céu
Olhos são arcos
Bocas são marcos
Ventre é um abrigo na Terra
Braços são ganchos
Pernas são arcos
Peitos são fonte de nutrição
Pintas são marcas
Pintos são facas
Pele é a capa de um livro
Unhas são lixo
Suores são viscos
Coração é apenas um vulcão
Sangue é lava
Sangue me lava

Cílios são flechas miradas ao céu

terça-feira, 29 de junho de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

Do que somos feitos

Penso em ti como alguém
Para dizer apenas te amo
Com toda sinceridade
Despido de toda vaidade

E do mesmo jeito, alguém
Para dizer eu te odeio
Com força e com vontade
Mas nunca na eternidade

Porque acima, e juntos,
Diremos: nos amamos
Sei do que somos feitos

Porque juntos, e acima
Nos amaremos, nas nuvens
Voando, no ar rarefeito

domingo, 16 de maio de 2010

Soneto do farol

O bandido bate no vidro
Ele ataca, mas não mata
Você treme de medo e frio
Sente que a vida escapa

O bandido vai embora, só
Você respira e não relaxa
Ele treme de medo e raiva
Odeia se a presa escapa

Você sabe que seria pior
Se ele tivesse atirado
E tirado essa vida ínfima

Ele jura que será pior
Na próxima vai atirar
Estuprar, foder a vítima

terça-feira, 4 de maio de 2010

Uma voz

Sou, assim tão calado
Do teu lado, aprendi a viver
Sou, não me mostro inteiro
Primeiro, deixa eu te conhecer

Assim, me descubro em nós
Meus nós, desfaço nessa voz

Sim, mas agora me vejo
Teu beijo, fez eu me descobrir
Sim, quando agora me vejo
Não nego, eu não vivo sem ti

Assim, só nós dois nessa voz
A sós, nem cabemos em nós

Você veio assim
Como se só quisesse saber
De sofrer, de chorar, de querer

E eu cheguei por mim
Como quem só quisesse saber
De contar, de cantar, te encantar

E uma voz
E uma dor
E outra voz
E o amor
Ficou

terça-feira, 20 de abril de 2010

Até que se ria

O amor deve estar
Em coisas menores
Nos gestos banais
Choros sem ódio
Tudo o que passa
Na piada sem graça
Até que se ria

E hoje lembrei
De meu bom amigo
Que me apresentou

Como ouvir João
Como ser chato
Do jeito exato
Até que se ria

Porque essa vida
Menina arteira

Totalmente errada
É totalmente sua
Sinta, integralmente

Futuro e presente
Ate que se ria

Do passado que lhe espia

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rapidamente

Minha casa de tão pequena
Me faz entrar agachado
Meu jardim, sem ter flores
Azuleja a vista alheia

O céu daqui é cinza
Misto de pó e energia
O rio grosso é lamaçal
Merda que inunda brisa

Ainda assim, ontem
Um pardal passou aqui
Bateu asas. E voou

Ainda assim, hoje
Eu decidi sorrir
Rapidamente. Passou

sábado, 3 de abril de 2010

Logo de manhã

Logo de manhã
Não há quem aguente
Uma mulher carente
Bêbada e molhada
Que implora para você
Comer todos os buracos
Com aquela voz torta
Mistura de fumo e whisky
"Vem transar comigo,
porque sou uma gostosa"
Nessas horas, meu amigo
A melhor coisa a fazer
É abrir um livro novo
E ler pensando que mais
Vale uma página branca
Que uma buceta rosa

sábado, 27 de março de 2010

Che paura

Chove na minha cabeça
Minha cama molhou toda
Me deu gripe, che paura
Finalmente minha vida
Deixa a secura, o árido
Umidificado e limpo
Sigo, puto, vida dura

quinta-feira, 18 de março de 2010

Pelos e poros

É por não usar camisa
Engomada e made in Italy
Por cagar para a essência
Inédita do perfume francês
Que sou assim

Prefiro mil vezes posar de
Delinquente a virar imbecil
Pavoneando pelas esquinas
Para as meninas, putas finas
Eu sou assim

Aí, à noite, quando vocês
Dobram as nobres vestimentas
Despem-se dos pudores para
Foder sobre o mármore frio
Clareia, enfim

Vocês são como eu:
Pelados, suados, úmidos
Cheios de pelos e de poros

Mas são muito piores:
Porque vocês são quase
Nada sem o rigor da moda

E eu sou isso mesmo:
Suor, saliva, porra
Sou fé, fedor. Sou foda

sábado, 13 de março de 2010

Mosquito

Mosquito esmagado no banheiro
Perninhas finas erguidas
Quase com um rosto de sofrer
Esmagado, inseto estúpido
Parece até um programa de TV
Com aquela gente toda fodida
Casa boiando, corpos boiando
Cheia de raiva nos olhos
Matando e morrendo no farol
E aí, pensando nisso ainda
Me volta o amigo de mijadas
Mosquito que me faz ver:
Uma bala na cabeça
Um rasgo no coração
Uma sentença de morte
Nada disso muda
A condição de sermos
Apenas insetos estúpidos

quinta-feira, 4 de março de 2010

Na média

Merda é ser uma pessoa
média

Faz de tudo um pouco e faz
pouco

Aprende mundos e sabe a fundo
nada

Pessoa sanduiche de pão com ovo
de novo
Meia mussarela, meia calabresa
de novo
Uma belíssima foda mal dada
de novo

Absolutamente comum, enfim
Na média

Uma merda

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O velho que babava sangue

Quando passei pela rua ele já tava caído
Uns três ou quatro ainda davam chutes na cabeça
Coisa tímida, com o cara lá, babando sangue
Parei pra olhar aquilo bem. Fui chegando perto
Era uma porra de um velho de uns 70 anos
Tava todo fodido, braços quebrados, sem dentes
Olho querendo escapar da órbita. Um lixo de velho
Esperei os três ou quatro acabarem com sua sede
E fiquei lá, eu e o velho fodido babando sangue
Eu disse: "oi velho, consegue me ouvir?"
"Tu tá todo fodido velho e nem polícia veio"
Olhei pra o céu, tava escurecendo rápido
Aquele filho da puta devia ter feito algo terrível
Ou devia ter feito nada. Essa é minha teoria
No mundo de hoje, fazer nada transforma você
Numa espécie de criminoso. Pelo ócio, pelo ódio
Ele devia ter feito nada, certeza. Velho de merda
O sangue que escorria da cabeça fazia uma poça
Dei um passo para trás. Saquei meu celular
Limpei o visor. Por que aquela merda de visor
ficava sempre tão engordurada, mesmo no bolso?
Disquei. A atendente soltou sua frase padrão,
misto de autoridade e conforto. Me deu raiva daquilo
Foda-se o velho babador de sangue, foda-se a atendente
Simplesmente saí andando. Rápido, olhando para os lados
Afinal, não dei porrada no velho, não o socorri. Fiz nada
E por nada, nego toma surra até virar do avesso

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Solidão

Sou só solidão

Sonho sempre
Ser Sol
Sinto sempre
Ser santo

Salto, subo
Suo
Sento, sofro
Seco


Sendo...
... sincero
Sou...
... cínico?

Sou só solidão

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Quero tudo

Tudo que quero é nada
Nada que tenho é tudo
Pois se eu gosto, cresço
Mas vezes também reduzo
E hoje, enquanto tento

E tentando assim, afundo
Reviro, volto avesso
Nessa aversão ao mundo
Que tanto me desagrada
Sangra, rói, dói fundo
Posto que tenho nada
Sendo que quero tudo

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Encare a felicidade

Encare a felicidade
Que tanto lhe falta
Como quem encara
Um peixe no aquário

É algo lindo, suave
E relaxante, mas
Com uma barreira
Impossível de passar

Depois, não chore
E encare a solidão
Como quem encara
Um leão de perto

É algo lindo, ruidoso
Perturbador e logo
Vai devastar cada
Pedaço de seu corpo

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Com meus botões

A cada novo dia gosto menos de gente
Tenho meus motivos, obviamente
Mas há tambem a parte escura
Não gosto de gente mesmo quando
Tudo é feito pra me agradar
Gente nova me oprime
Gente antiga me deprime
Então, fico com meus botões
Porque sei que não há quem
Entenda essa minha misantropia

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Papel

A mulher da rua se virou. E olhou pra mim
Disse meu nome é Marialva. E eu disse sim
Falou que a rua é fria, que a gente se perde
E completou: me segue, que assim você se acha
Me levou pra um hotel barato, na mesma rua
Cheirando gente nua, cândida e naftalina
Sentou na cama e pediu um beijo e deitou
Me disse: vem em cima. Me disse: me domina
Eu não fui e ela sentou, na cama, na calma
Pediu: tira minha blusa. Eu tirei. E ela disse
Me abusa. Não abusei. Não quis mais nada
Ela gritou, esperneou, perdeu a linha
Eu gritei, sua puta, galinha, vaca, vadia
Bati a porta, sai pra rua, a mesma rua
Aquela rua é minha. E quem ela acha que é
Pra querer uivar comigo, em pleno dia
Sendo que em casa tenho um amor
Uma taça de vinho. Um disco de Noel
Um retrato do meu cão
Todo açúcar e todo o fel
Pra ser feliz, rir, chorar, gozar
Minuto a minuto. Na vida. No papel

domingo, 29 de novembro de 2009

Banho-maria

A vida não pode ser apenas uma noite sem fim num posto, tomando cerveja e cantando?

Ou uma festa numa cobertura, regada a champanhe e música boa?

A vida não pode ser apenas uma balada escura e cheia de cantos num lugar novo para gente nova?

Ou um almoço ao Sol, na beira do rio, comendo peixe e tomando cerveja gelada?

A vida não pode ser uma viagem para uma praia paradisíaca com caminhadas sem hora para terminar?

Ou um plano de se perder do mundo achando todo o resto?

A vida não pode porque a vida é a vida, um misto de tudo de bom e ruim.

Ou um caldo de tudo que vai sobrando, temperado com mais sal que açúcar.

E que vai cozinhando em banho-maria.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aqui

Shangri-la
Aqui, sangue
E merda
Alguém ri?

Telefone

Toca telefone toca Telefone toca toca Telefone toca telefone Toca toca telefone Sai da toca Se toca Toca, telefone Trim trim pra mim Trim pra mim trim Trim trim pra mim Trim vai trim Porra Toca porra toca Toca telefone toca Toca porra porra Trim toca telefone Toca porra trim Trim pra mim Porra

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A mulher mais linda do mundo

Hoje, no bar, me apaixonei
Pela mulher mais linda do mundo
Ela vestia todo branco
E sorria seu olhar brilhante
E ela bebia e cantava e viva!
Eu, na minha fossa, só olhava
Cada vez que aqueles olhos
Iam atender uma ligação
Fora da mesa, eu pensava:
“Filho da puta que está ligando,
deixa ela aqui pra mim”
Então a madrugada entrou
Bebemos mais e mais
E bem pro final ela levantou
Chamou um puto pra dançar
E cantar aquela canção
Eu sabia, caralho, eu conhecia
Levantei pra pagar a conta
E olhei aquele corpo bailando
Passei pela porta e esbarrei
Nos olhamos e ela me puxou
Disse: “Vem dançar comigo”
Estávamos no meio da rua
A cantar aquela canção
Eu sabia, caralho, eu conhecia
E cantei todo meu espanhol
Naquele ouvido iluminado
Depois, pensamos juntos:
Hoje vamos ficar aqui
E ficamos, até amanhecer
Até anoitecer novamente
Até amanhecer outra vez

Eu, sem fossa alguma
Com a mulher mais linda do mundo

segunda-feira, 6 de abril de 2009

É bom saber

É bom saber que a vida segue o curso
Que o soluço para e a lágrima seca

É bom saber que as cores voltam
Que ainda há sabor, ainda há gosto

É bom saber que você já dorme
Que acorda cedo e também sorri

É bom saber que você caminha
Que andando sua, suando sonha

É bom saber que você cresceu
Que a dor que lhe causei serviu

E é bom saber que eu cresci
Que minha trilha solitária serviu

E é bom imaginar você à noite
Que meu pensamento me liberta

E é bom imaginar você de dia
Que sua presença me conforta

E é bom você saber que a vida segue
E que isso aqui será sempre sua casa

domingo, 5 de abril de 2009

Você achará

Você achará outro homem
Eu acharei outra mulher
Mas diz, esse amor, isso tudo
Haverá de se reconstruir
Ou ficaremos nós tentando
Criar um meio para viver
Um meio só pra reescrever
Sim, houve dor, houve sim
Houve amor, e ele há
Então, deixe estar
Mas sabemos como é
Viver a dor implica em mudar
Aceitar o amor é continuar
Cabe a cada um aceitar
Retomar para reinventar
Ou simplesmente trocar
E o mundo dirá o que virá

E se esse amor reinará

sábado, 4 de abril de 2009

Infinito

Vem agora
Que agora ainda existo
Que depois
Depois sobra o mito
Que daí
Daí será o infinito
E infinito, meu bem
Só o amor que sinto

domingo, 29 de março de 2009

E a gente?

Nunca doeu tanto, nunca
Uma dor foi tão latente
Eu que achava - inocente -
Que havia sofrido, havia
Que havia estado doente
Mas tanto de ti nessa casa
Afunda o peito, dormente
Porque tudo que seria
Pra sempre virou nada
E segue a vida, ela gira
Gira o mundo, gira a mente
Mas e a gente?
E a gente?

domingo, 22 de março de 2009

Vontade

Se eu me deixar levar
Será que vai dar?
E se eu não deixar
A dor vai continuar?
Se for pra ser assim
Deixo nesse instante
O mundo cair

Em mim, e há de vir
Quem sabe, amanhã
De novo, vontade

quinta-feira, 19 de março de 2009

Um desatino

Se eu pudesse ser o que querem
Seria uma canção de Roberto
Com o amor vencendo enfim
Seria um samba de Noel
Num romance de botequim
Ou um poema de Vinicius
Sem porre, sem folhetim

Ou poderia ser uma pausa
Uma pausa
Uma pausa
Uma...
... pausa

Se eu pudesse ser o que querem
Seria o respiro de uma valsa
O acorde em que se cala
Ou então uma cena forte
Com cheiro de adrenalina
O momento em que termina
Toda tela apaixonada

Ou poderia ser um nada
Um nada
Um nada
Um...
... nada

Se eu pudesse ser o que querem
... mas sou isso, a pausa e o nada
O vento alimentando brasa

Se eu pudesse ser o que quero
... sendo isso, um desatino
Aceito o que traz o destino

sexta-feira, 13 de março de 2009

Próximo capítulo

Antes de sair de casa eu li
Um capítulo daquela porra de livro incompreensível
E fiquei pensando que eu não entendo nada
De nada, uma merda
Aí, durante o dia, vi um sujeito
Fingido ridículo e asqueroso
Uma bicha afetada e carente
Com seu tipinho sujo e fedendo a sexo
E uma mulher vulgar e gostosa
Que era o cúmulo da vulgaridade
Parei no bar com essa gente da cabeça
E com o livro, incompreensível
Em casa, vem você e diz que não me entende
Não entendo nada também
Porra. Lembrei do livro
Não entender até que é bom
Vou para o próximo capítulo

segunda-feira, 2 de março de 2009

Antídoto

(Meu anti, meu tudo)

Contra o que sempre quis
Nunca o que sonhei e
Tudo o que me fez é seu

(Meu canto, meu nada)

Voraz, devora o mundo
E agora voa, rápido
Assim lhe passa o peso

(Meu bem, meu mal)

Você é o meu lado
Mais puto, mais animal
Mais louco e irracional

(Antídoto verdadeiro)

Para todas as dores
A calma e a latejante
Cura mesma e verdadeira

(Antítese total)

Somos isso / Cerveja e sangue
Riso e choro / Bem natural, afinal
Mas que findou / E findou mal

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Amar

Amar incondicionalmente
É perder a vírgula,
O ponto, o parêntese
É saber que a dor que dói
Não é tão pungente
E que estando só
Já se está com a gente
Haja frio, haja calor
Haja riso, haja pavor
Até mesmo sem vontade
Esquece-se a novidade
Vive-se para o outro
Vive-se cada dia novo
O futuro é um presente

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Uma ilha

E você, por que
Não me liga?
E eu, por que
Não te digo
Simplesmente
O que sou mesmo...

Ilhado
Sem praia
Sem Sol
Sem areia

Eu e Deus
Uma ilha
Eu e Deus
Ligados
Esperando
Talvez
Você chegar
Sem adeus
Sem oi, sem
Nós nem Deus

domingo, 18 de janeiro de 2009

Muito melhor

Ela estava linda e já foi chegando
E falando: eu não me visto assim
Porra, que péssima notícia
Eu queria assim sempre. Mas ok
Ela tem uma boca carnuda, cheiro bom
Mas fica olhando se eu bebo muito
Ela é um tesão, mas fica olhando
Então eu prefiro meu canto
E depois, quando ela se aproxima
Perguntando: não vem aqui não
Eu digo que nem por um caralho
Porque o tempo vai deixar
Aqueles peitinhos uma bosta
E esse mesmo tempo deixará
Meu vinho muito melhor

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um gosto

Ele disse: "Mais vale um gosto que um desgosto"
E eu respondi: "Porra, tá difícil hoje, meu irmão"
Mas no fundo é isso. Ele é um fodido e sabe viver
E eu sou isso. E vivo pra me foder bem fundo

domingo, 4 de janeiro de 2009

Soneto ao vento

Por eu ser assim, eloquente
Por meu beijo ser quente
Você pensa que seremos assim
Que seremos, talvez, serenos

Não se engane, meu bem
Pois sei bem o que sou
Minha propaganda é vaga
Minha promessa vale nada

Então, ao se sentir morrendo
Lembre-se de respirar
Pense que somos puro ar

Então, se quiser gritar
Lembre-se de estar vivendo
Que eu, anjo, sou puro vento

domingo, 7 de dezembro de 2008

Pânico

De repente isso
Que chega sem mais nem menos
Que dói no peito, na garganta
Que seca a boca, deixa tonto
Que falta o ar, que falta o chão
Toda a certeza de morte está aqui
Toda a certeza de morrer

Mas não, agora eu sei que não
Ainda assim eu sinto tudo
Sozinho, dói mais, mas
Não posso evitar os lugares
Ontem saí e foi horrível
Aquele monte de gente
Falando, rindo, fedendo

Minha casa também aperta
À noite tentei ver algo na TV
Uma falta de ar não deixou
Eu tô tentando lutar
Eu não posso me isolar
Eu não posso me entregar
E tudo parece um filme

Para dormir, sublingual
Para acordar, a luz
Para viver, sabe lá

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Tenho a Lua

Minha cama é uma imensidão
Nela cabe um mundo, mas está vazia
Vazia e fria e enorme e fria e vazia
Pensando bem, melhor assim
Tenho espaço pra esticar minhas pernas
Pra rolar, pra me virar como quiser
Se quiser até derrubo vinho nela

Derrubo em mim, no cachorro
Ele bebe vinho, mesmo, gosta também
Se quiser, derrubo a cama no chão
E venho pro chão e vinho no chão
Foda-se, foda-me também, aceito
O molhado sou eu, o quente também
Tudo em mim, de olho na Lua
Tenho eu, tenho a Lua, uma só
Logo o dia nasce e eu durmo
Durmo mesmo, longamente

Com a Lua a meus pés

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Rotina

A primeira coisa que faço
Ao acordar é olhar minha barriga
Ver o quanto ela vai crescendo, crescendo
Analisar o umbigo, os pentelhos
Eles sempre escapam da cueca
Sentir o acúmulo de gases da noite anterior
Depois, gosto de arrotar, arrotar
Tomar um grande gole d'água
Coçar os bagos, esticar as pernas
E peidar forte. Sim, bem forte
Não necessariamente nessa ordem, mas isso
Entende por que eu prefiro mandá-las sair às 5?

domingo, 23 de novembro de 2008

Esse alguém

Se eu fosse esse alguém
Que mora aqui agora
E não te rejeitasse
Alguém que só amasse, sem questionar
Como um tesouro, uma jóia rara
Um eterno rir sobre o tapete, no som
Ouvindo, cantando, sendo nós
No quintal, pulando, gritando
Se eu fosse esse alguém
Seria o que mora aqui agora
Doído, solo e rejeitado

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Viver pra achar

Viver pra achar
É uma busca ilimitada
E cheia de esperança

Morrer sem achar
É o limite da busca
E o fim da esperança

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Diálogo das 4h15

Diálogo das 4h15. Eu e ela. Só sobramos nós.

"Fica tudo meio turvo, não fica?", digo.
"É a bebida."
"Será? Pode ser coração batendo."
"Não, é a bebida, vai por mim."

Um gole, outro, uma volta e voltamos.

"Tô ficando tonta. Bebi demais."
"Não, é o coração", digo.
"Será? Pode ser bebida."
"Não, é o coração, vai por mim."

Um gole, outro, um beijo, outro, outro, quase caímos, voltamos.

"Tá tudo meio turvo", ela diz.
"É, tá tudo meio turvo."
"Nosso coração?"
"Não, é a bebida."

E caímos.

Estando sóbria

Eu desapareço por fraqueza,
Por não saber o que dizer,
Por deixar mostrar que no fundo eu estou
Carente e só e bêbado e muito
Então, confesso: admiro essa força
De desaparecer completamente
Estando sóbria e sã absoluta
Eu não agüentaria e isso
Só aumenta a admiração
Que eu sinto por você
Ok, dá um pouco de inveja
Por você se fingir tão bem de morta

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Cara, e agora?*

Cara, me diz, e agora?

Era você a referência velada
O adulto admirado, tipo ideal
Estilo moderno pra quem era novo
Cerveja, praia, coisa e tal

Cara, me diz, e agora?

Você foi dessa, meu irmão
Você seguiu, simples, o andor
Partiu, deixou um monte aqui
E a gente ainda queria calor

Mas cara, me diz, tá legal?

Porque eu acho que sim
Porque, sabe, eu também canso
E eu, quem sabe, por mim
Também pedia um descanso

Então, cara, meu guia
Minha espécie de chapa
Relaxa com essa sangria

Porque, cara, é verdade
Voa, voa, voa alto
Isso agora é liberdade

* Cada palavra, cada vírgula, cada tentativa de rima aqui é dedicada a Evaldo Apolonio. Muita saudade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Uma gigante interrogação

Porque gostava de correr na rua,
Sozinho, imaginando coisas
Porque fazia quilômetros
Ia ultrapassando as dunas
Como se fossem obstáculos
Ia cruzando com as gentes
Pensando o que cada uma fazia

Porque a cabeça já não parava
Ao meio-dia, sem proteção
Porque se era mesmo, então seria
Um suicídio lento e doloroso
Num mundo que virara massa
Podre, misto de sexo e de lixo
Uma gigante interrogação

Era aquela coisa amargurada de ficar pensando que se podia ter feito algo que nunca se fez. E era um puta sentimento de solidão. Um puta sentimento

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Me olha

Fico aqui pensando:
Onde devemos ir?
Até quando?
Quanto?
Será de nós?
Me olha
Me olha
Me olha de novo
Ninguém sabe
O mundo não tem jeito, tem?
Me olha
Me olha
Me olha e devora
Se eu sei?
Eu semprei tentei
Minha última taça
Minha última graça
Meu troféu
Sempre amanhece
Sempre anoitece depois
Hoje, meu mundo
Amanhã será seu?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O corno de óculos

Estávamos no bar desde o final daquela tarde. E já era noite corrida. A mesa, grande, havia decidido jogar palitinhos. Coisa de boteco. Quem perdesse pagava uma dose. Tínhamos uma pilha de copos na mesa quando, naquela nuvem que o torpor alcoólico cria, vi aquela morena me olhando. Olhando nos olhos. Incrível: ela estava numa mesa minúscula com o namorado/marido flertando descaradamente. Puta. E que puta. Cutuquei Renan, meu amigo sentado à direita.

"Bicho, eu tô muito louco ou aquela putaça quer jogo?"
"Sim, ela quer."
"Mas que puta", falei, vidrado nos olhos dela.

Não passaram cinco minutos e ela, com um decote generoso,veio pedir cigarro a um dos rapazes da mesa. Acendeu, tragou, soltou a fumaça e disse que queria jogar. Sim, queria mesmo. E com o maridão bebericando um treco qualquer na mesa ao lado. Dispensável dizer que palitinho, o jogo mesmo, não teve mais. Eram nove caras cobiçando sem rodeios a mulher do próximo. Bem próximo. Ele dava um gole, olhava para baixo com aqueles óculos totalmente fora de moda. Corno. Quando ela, empolgada e excitada, era explítica demais em um comentário, o cornão limitava-se a dizer. "Não ligue, a Mila é brincalhona mesmo."

Alta madrugada, o jogo terminou. Aquele, ao menos. Todos foram juntos para a porta, inclusive a puta e o otário - que mancava um pouco e se apoiava nas cadeiras. Despedidas rápidas e ficamos eu, Renan - que passaria a noite em casa -, Mila e o corno.

"Você moram longe?", disse ela.
"Não, logo ali. Cinco minutos a pé", respondi.
"Ah, o que é isso. Tá muito tarde. Nós daremos carona pra vocês."
"Não precisa, vá com seu homem pra casa."
"Vou, mas antes levaremos vocês."

Ela dirigindo. Ele quieto do lado. Na porta da casa, rolou aquele papo de bebum, de saideira. E nós quatro entramos. Ok, ela era bem gostosa, isso contribuiu. Seriam mais alguns minutos de marturbação visual. Nas barbas do mané.

Fui pegar as cervejas e ela veio atrás. Disco do Chico rolando na sala, maior climão de fim de noite. Marido no sofá, falando sobre música com o Renan. E, na cozinha, ela esqueceu a bebida e começou a lamber meu pescoço, a se esfregar em mim.

"Louca, olha seu marido ali."
"Ele é um gênio, um professor universitário. Mas, que tipo de idiota é você que não percebeu que ele não enxerga direito. Não viu que ele anda se apoiando?"

Realmente, agora aqueles óculos estranhos faziam algum sentido, pensei, enquanto ela mexia nas minhas calças. Ficamos nesse joguinho sala/cozinha por mais uma hora. Até que não agüentei.

"Você vem para o quarto agora que eu vou te foder toda."
"Vai é? hum..."

Subimos. Na cama, quase nus, ela agarra meu pau, como se fosse um microfone: "Só uma coisa, neném, ninguém é bobo aqui. Meu marido tem de subir. Tem de estar aqui com a gente. Esse é o lance. Nosso lance."

Meu sangue subiu. Virei um soco nos beiços da putaça. Fiz com que ela se vestisse em dois segundos. Voei para a sala e, ofegante ainda, descarreguei. "Vocês dois, filhos da puta, vadios de merda. Pra puta que os pariu. Fora!" Renan, assustado, deu um gole na cerveja e viu o casal sair. Voltei à sala, abri uma gelada e troquei o som.

"Escapei, bicho..."
"O que houve?", disse Renan.
"Porra, o lance era eu comer a mulher do cara nas fuças dele. Ela disse que ele queria olhar tudo."
"Babaca! Devia ter comido."

Fechei o rosto. Fui para o quarto. Não queria brigar com meu amigo. Até porque ele nem havia percebido que o cornão para quase cego. E cego, meu caro, só enxerga passando a mão.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dobro

Sempre que me vem à cabeça entender
Nem ligo: a mim, nem eu nem ninguém

Sempre que eu tento compreender
Todo o mundo me diz, vá cagar

Então eu melhoro, eu me dobro
E a quem interessar, eu digo


Dou em dobro

domingo, 10 de agosto de 2008

Minha gente

Quantas vezes eu disse que amo vocês?
Quando criança, talvez
Alguma vez?
Pois existe essa carapaça
Essa máscara que não passa
Uma espécie de casca
Que insiste em existir

Aqui, eu existo também
E não pensem, minhas razões
Que alguma vez, qualquer
Eu deixei de ser vocês
Que alguma vez eu deixei
Porque eu não deixo...
Nunca deixo...

Então, vejamos bem
Sintam minha voz no topo
Sim, eu amo vocês
Do jeito que eu sei dizer
Do jeito que eu sei viver
Com esse amor
Mesmo de longe, mas latente

Mãe, pai, avô, avó, Rafa
Com tudo isso que se sente
Meu sangue, minha gente

domingo, 1 de junho de 2008

Misantropicamente

Relax e ódio no coração
Para um mundo melhor
Porque não adianta nada
Nada, absolutamente
Estar tranqüilo e achar
Que a humanidade é boa
A humanidade não é legal
E nada a ver o papo
De que o ódio faz mal
Faz mal pastar pela vida
Faz mal esse papel social
Então, respire fundo
Mantra e sangue na venta
E viva bem. Relaxe
Misantropicamente

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Canção de ninar

Quero que você chegue
Sabendo que meu amor
Será todo seu, pequena

Quero olhar seu rosto
E esperar amanhecer
Com você aqui, serena

E se, por acaso, você chorar...

Estarei sempre aqui pra te ninar
Estarei sempre aqui pra te ninar

Quero sentir sua pele
A roçar minha barba
Espessa, me cresça

Quero me ver passar
No seu olhar, mirando

A inocência, não cresça

E se, por acaso, você chorar...

Estarei sempre aqui pra te ninar
Estarei sempre aqui pra te ninar

Dorme, neném
Dorme, neném
Que o tempo é todo seu
Meu bem

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Vim do Verão

Então, de repente, nem sei quando
Vi que parei de chorar
Esfreguei meus cabelos brancos
Alisei meus olhos santos
Notei que o que era pra ser
Estava lá

Então, de repente, nem sei quando
Descobri...
A vida inteira, quando jovem
Lutamos para ser Verão
O corpo exposto, o riso solto
A alma e todo o coração vão
Mas o Verão, como se sabe
Tem suas muitas águas
Abundantes, fortes, desvairadas
E o Verão, meu caro, o Verão me passa

Então, de repente, nem sei quando
Me cobri...
E vi que eu já era Inverno
Pois sou frio, sou forte, sou Norte
Mostro só o que se deve
Rio só quando me serve
Como todo Inverno, seco
Ninguém vê a chuvarada
Pouco choro minhas mágoas
O Inverno, meu caro, o Inverno me serve

Então, de repente, nem sei quando
Com meus brancos cabelos de neve
Com minhas rugas, rusgas de leve
Sinto o Sol ofuscar, lindamente
A vista dos que vêm do Verão

sábado, 8 de março de 2008

Xuxa

A quem interessar possa: estou baixando a íntegra do clássico "Amor Estranho Amor". Eu, que sempre odiei a Xuxa, darei a ela 90 minutos para me fazer mudar de opinião.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A morte

Pedro conversa com um amigo do Globo:
"Porra, ficou sabendo que o Ricardo morreu?"
"Que Ricardo, caralho?"
"O que trabalha com vocês, na parte de Música. Foi o coração. Do nada. Pum! Saco!"
"Caralho. Sério? Não lembro o sobrenome dele, mas sei quem é. Quem era..."
"Então, falaram hoje. Viver tá foda. Ninguém se comunica mais. Isso fode meio mundo. Ainda bem que ainda temos o fumódromo aqui. Bom, deixa eu ir. Abraço."

Pedro fala com Cuca:
"Bah, Cuca, o guri que fazia música morreu, tá sabendo?"
"Quem, Pedro, vai te foder. O que é isso?"
"O Ricardo, não me lembro o sobrenome."
"Pieralini?"
"Isso, acho que é isso. Era. Coração. Bah! Saco!"
"Saco digo eu. Ele era foda. Pô, que pena."

Cuca com Carol:
"Carol, tá sabendo o que houve com o Ricardo?"
"Com o Ri? Nada, acho. Por quê?"
"O Pedro contou... Ele morreu. Algum colega do Globo que conhecia ele falou."
(Carol engasga) "Ai, mentira! Vou tentar falar com ele."

Carol tenta várias vezes. E não consegue. Todos já sabem que Ricardo morreu. Alguns sentem. Outros querem mais é que ele se foda no inferno. No fim da tarde, o telefone do defunto chama novamente:
"Ri?"
"Oi."
"Ri, tudo bem?"
"Oi, Carol. Tudo bem, e você? Aconteceu alguma coisa?"
(Carol chora) "Disseram que você tinha morrido. Do coração."
"Porra, agora que eu tô saudável. Academia. Correndo seis quilômetros por dia. Porra, bando de filho da puta."
"Ufa, Ri. Fiquei uma pilha. Caralho."
"Bom , relaxa. Amanhã é sábado e eu vou aí logo cedo. Tomamos uma cerveja, comemos. Vamos comemorar minha nova vida."
"Eba."

Ricardo liga para Carol, sábado, início da noite:
"Carol, fodi as costas. Tô parecendo o House. Chato e manco."
"Porra, Ri, mancada. Eu tinha combinado tudo."
"Pô, desculpa aí, não é culpa minha. Espera que eu vou tentar ir ainda. Te ligo em 15."
"Beijos."
"Beijos."

Ele não liga. Cinco horas depois, Carol para Ricardo:
"Morra!"

Ele, bêbado, nem ouviu.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Não dá pra tomar queijo

Solta a boca do copo
Pára de morder, caralho
Tem gente que quer tomar mesmo quando o vinho acaba
Agora, minha boca tá roxa. Tá sangrando
Vai morder a porra do caralho que o parta!
Nem, nem curto
Pior é que nem tem mais vinho
Tem só o queijo, o pão e as azeitonas
Alguém sabe o porquê de sempre sobrar queijo e pão?
Porra, não dá pra tomar queijo. Nem pão
Último gole, meio quente
Vinho tinto não se toma com a temperatura do Verão
Ducha, ducha
E sono
Amanhã tenho de comprar o jornal
E band-aid para a boca

Contento

No fundo, eu queria ser jogador de futebol
Não. Eu queria ser jogador de tênis
Não. Queria ser cantor de qualquer banda
Eu quero ser é escritor
Por enquanto
Me contento em tentar entender meus vinhos

sábado, 12 de janeiro de 2008

Eu escrevo pra ninguém

Pensando bem, eu escrevo pra ninguém. Ok, você pode estar aí lendo essas coisinhas. Mas você é um pedacinho de nada, uma coisa nenhuma, uma merdinha sem cheiro e sem cor.

Muitos iguais a você fariam a diferença. Virariam uma merda gigante, escura e fedida. Por enquanto não. Eu escrevo pra ninguém e me sinto muito bem assim. Inodoramente. Às cegas.

Pensando bem, eu sou o verdadeiro indie. Não tô usando all star. Não tô ouvindo nada, só o teclar dos meus dedos. Não tenho franja, tá tenho uma. Foda-se. Eu sou o verdadeiro indie. O poeta sem leitor. O contista sem crítica. Puta honra.

Gole de Chivas. Cheers! Mas é o seguinte: além de toda essa besteira que eu escrevi, tem o fato de eu ser mais um. Sim. Porra. Se eu escrevo e ninguém lê, pode haver milhões que escrevem pra ninguém. Pode não. Há. Certeza. Puta que os pariu.

Eu bem que tentei fugir disso, mas não dá: sou um porra de um tipinho comum. Esse que chora. Esse que ri. Esse que bebe. Esse que pensa. Disso eu não abro mão. Mesmo que ninguém me leia. Cheers!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Perdoa-me, Gabo

Aos 31 anos, cheio de questionamentos vitais e seguro de que muitas das respostas nunca virão, tomei uma decisão fundamental de ano novo (coisa, aliás, que acho ridícula): vou começar a jogar videogame.

Vou começar não. Já comecei. Vi preços de aparelhos - cujos modelos e possibilidades eu desconheço - e estava quase fazendo mais uma dívida quando meu irmão, salvador, veio com a notícia. "Cara, tenho um Playstation 2 na caixa e não uso. Leva pra você jogar."

Dito e feito. E bem feito, no final. Instalei, joguei algumas vezes completamente atrapalhado com o número de botões e, enfim, imaginei estar ambientado com o treco. Detalhe: para jogar, deixei Garcia Márquez adormecido ao lado da minha cama. Cheio de histórias pra contar, tagarela e genial, como sempre.

Voltando. Após as tentativas e os treinos, cheguei em casa na segunda-feira, à 1 hora, madrugada pós-trabalho, e decidi desbravar um CD do videogame. "Shadow of the Colossus", ou algo bem parecido, é o nome do negócio.

A abertura - quase um filme, inclusive sem jogo - durou uns 15 minutos. Daí, meu controle tremeu, consegui dar uns passos com o bonequinho e... novo capítulo da produção. Cerca de meia hora depois de ligar, finalmente começa a brincadeira.

Vou resumir o final para amenizar o sentimento de piedade: fiquei uns 90 minutos jogando. Corre, pula, levanta a espada, sobe no cavalo, desce, corre mais, entra na água, entra no castelo, sai do castelo. E só isso. Não achei um inimigo, não matei ninguém, não "conversei" com qualquer porra de personagem. Fiquei numa punheta virtual que saiu do nada para o lugar nenhum. E descobri que não tenho a menor vocação para essa grande bosta.

No fundo, isso é uma excelente notícia para meu cérebro. Mas, como não sou insensível, só me sentirei livre novamente após minhas desculpas públicas. Perdoa-me, Gabo!

domingo, 30 de dezembro de 2007

Sujou

Sou absolutamente neurótico com a limpeza da minha casa. Neurótico mesmo. Já houve dias em que minha namorada teve de ficar parada num canto, me olhando, enquanto eu varria e passava um pano freneticamente por todos os cômodos. Era justo, a faxineira tinha limpado tudo quatro dias antes. Enlouquecedor.

Pois bem, digo a todos: no penúltimo dia deste ano, minha casa está um nojo exemplar. Meu cachorro maluco mija no quintal e entra com as patas úmidas, se lava com água por todos os cantos. Eu derrubei comida no sofá e no chão da sala. Tem cabelo por todos os lados. Fora a poeira. Fora o cheiro. Fora que meus banhos estão escassos. Juntou tudo.

O quintal fica meio limpo, porque chove vez em quando e arrasta tudo para o ralo. Então, fugindo desse meu reduto imundo, resolvi passar hoje todo o dia no quintal. Assim foi.

Fiquei meio preto por causa do Sol de trinta e poucos graus. Também estou meio lerdo, sentindo o cérebro mole como o de um recém-nascido. Me enchi de água, olhei horas para as nuvens e ouvi todas as história idiotas dos meus vizinhos.

Pra quê? Não sei ainda se fugi da sujeira ou da preguiça de limpar tudo. Mas que se foda. Agora preciso tomar um banho, tomar uma cerveja, ler um pouco de Garcia Márquez e dormir. Amanhã é segunda. Sábado que vem é dia de faxina.

A Volta

O blog foi reativado. Até quando eu achar que assim deve ser. Obrigado.

sábado, 20 de outubro de 2007

Músculo

O homem de músculos
E o homem de cérebro
Eles se encontram quando dá
O homem de choro
E o homem de riso
Esses nunca se dão
Então meu irmão
Deixa tudo isso pra lá
Enche o copo de vinho
Pra transbordar a mágoa
Dança na chuva
Deixa a água lavar a alma
Mesmo assim se nada acalma
Se nada basta
Arranca o mal pela raiz
Bebe a lama em que pisou
Escarra no ventre que lambeu
Abre a janela
Que é pro vento entrar
Enterra o homem de cérebro
E se joga
E voa
E voa
Não morra
Se seu músculo bastar

?

Eu será tão que sou complicado? Cabeça minha que será tanto roda mesmo? Que serei eu? Que será disso? Que raios?

Vida

Se eu não morrer
Não me enterrem
Deixem-me ver o tempo, lento
Deixem-me apodrecendo, lento
Até que minha carne vire pó
E só
Até que meu sangue seque
E ecoe o grito:
Até que a vida nos separe!
Até-que-a-vida-nos-reúna!

Anoiteço

Se a noite fosse só o escuro, eu juro
Me arrastaria num breu
Mas... ah, a noite é mais

Ela desencava os mortos
Enterra meus sonhos tortos
Faz da luz uma imensa treva
Deixa ver Deus até no ateu

A noite cria no silêncio um vácuo
Um nada incontável, seu apogeu

Vê que a lua, esse ser divino
De tanto cantado escureceu

Como a estrela que era brilho
E cansou de cintilar, escondeu

Tudo o que fica é uma sombra
Sobra então o ombro, só

Chora o choro, passa o tempo
Embebeda o pensamento lento

Vira um vulto vagando, vendo
Vai se desmanchando o breu

Clareia o dia, enfim
Arrasta a morte, tenta
Derruba músculos, pálpebra, ventas
Desfaz tudo o que doeu

E assim desfalece o negro
O escuro que havia arde
Ah... a noite sou eu

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Os Olhos Não Traem

Tô enferrujando, quase não consigo escrever. Mas meus olhos não me traem. Tenho visto muito. Demais até. Olha:

O gol do artilheiro tava impedido.
O mendigo segue cantando aqui na rua.
A vizinha briga com o frouxo do marido todo santo dia.
Meu cachorro é um misto de autista e esquizofrênico.
Os olhos verdes são os mais lindos.
Eu sei que você não estava onde dizia.
O velhinho com a carroça abre meu lixo nas madrugadas em busca de sucata.
Minha merda anda mole demais.
Minha amígdala segue enorme.
O Chico tá com cara de idoso orelhudo.
Tinha um pentelho no meio do arroz.
O céu é sempre azul por aqui.
A poeira é gigante.
O lençol ficou manchado.
O piso tá sujo de novo.
E seu blog, ah... esse blog é invisível.

Tem alguém ainda olhando pra ele?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O Bêbado

O bêbado chegou do meu lado ontem à noite. Cambaleando. Pediu fogo. Não tinha. Pediu companhia. Não dei. Pediu um troco. Nem a pau.

Depois, parou de pedir. Foi saindo, aos tropeços.
Mas parou. Ergueu o indicador da mão direita. Ensaiou uma meia-volta e se virou novamente para mim.

Deu dois passos. Me olhou bem - bem, ao menos tentou me olhar. Se esforçou pra manter o equilíbrio e disse: fica com Deus e vai com cuidado.

Eu, mesmo sóbrio, nunca tive tamanha bondade.

terça-feira, 26 de junho de 2007

O Grito

Eu chegava em casa sempre no mesmo horário, pouco depois das nove da noite. Naquele dia, não foi diferente. Saí a pé do escritório, subi os dois quilômetros da avenida deserta, parei no mercado e peguei os pães e a salada de pimentão que a atendente já havia reservado. Tudo exatamente rotineiro.

Paguei com a nota de dez reais, recebi meu troco em moedas e segui minha caminhada para casa. Faltavam poucos quarteirões. A vida seria aquilo? Um roteiro programado e quase sem alterações? Pensei por dois segundos e só. Nunca fui de pensar. Sou fã incondicional da inércia e da ação do tempo.

Entrei no prédio quase sem fazer barulho, nunca gostei de ser ouvido. O segurança me viu, mas tudo bem, ele sempre me via e estava lá para aquilo mesmo. Ele justificava a merda do salário dele.

Comi no apartamento quase vazio, entre a poeira do chão, a cadeira de plástico da sala e a TV cheia de ruído. Abri a janela para tomar um ar. Ninguém para ver. Que tipo de gente habitava aquele lugar? Será que todos faziam como eu, entrando às escuras, ocultando o barulho das chaves, subindo as escadas nas pontas dos pés?

O silêncio me chamava para a cama. A cama pedia um livro. E assim foi, direto para meu mundo mais agitado e aventureiro. Aquele cara, o do livro, era um bendito filho da puta. Bebia todas, comia todas. Naquela noite, lá estava ele em uma nova investida sexual. Vai, rapaz, boa sorte.

Não houve tempo nem para as preliminares. A vizinha me despertou. Sim, a vizinha muda e quase invisível. A bonitinha da porta ao lado. Enfim, vida no prédio fantasma. E vida com 'v' maiúsculo, diga-se. Saí do mundo do meu livro por causa dos gemidos nada abafados da mocinha.

Aos poucos, aquela euforia sexual toda podia ser compreendida. Ok, eu colei o ouvido na parede para ouvir melhor. Instinto jornalístico, puramente. E somente. E não é que a fantasminha gostava do negócio? "Vai, mete." "Enfia, enfia." "Mais forte, mais forte." Eu, do meu lado, comecei a torcer junto e, confesso, cheguei a repetir algumas palavras, quase gritando. Onde aquilo acabaria?

Pois acabou em grande estilo. "Isso, isso, enfia tudo no meu cu!", gritava a vizinha revelação do ano. "Assiiiiiiiiiiiiiiiim..." A vida é injusta: eu jantando salada de pimentão com pão e alguém jantando a minha vizinha. "Bom apetite, caralho!"

Tive então a grande idéia. Para que deixar tudo calmo se é possível causar constrangimento? Me postei na sala, liguei a TV cheia de ruído, sentei na cadeira de plástico e esperei. Com a porta para a rua aberta. Realmente sou um gênio. Não perderia o casal saindo por nada.
Provavelmenete me olhariam, dariam um 'boa noite' sem jeito e iriam. Bastava. Sou um gênio.

E também sou impaciente. Foram duas horas de uma espera longa e angustiante. Eu já cochilava quando ouvi a porta ao lado abrir. Me ajeitei na cadeira, fingi naturalidade e, óbvio, fiquei olhando para o corredor. Primeiro saiu uma vizinha bonitinha. Vestia uma camiseta, um short azul e parecia desconfiada, a arrombada. Me olhou de relance. Não disse uma palavra. Cadê o puto comedor de cu?

A moça parou no corredor e deu passagem para seu par. Seu par, literalmente. O comedor de cu era, na verdade, uma comedora de cu. Toda sorridente, vejo outra vizinha, a do apartamento de baixo, descer as escadas sorrateira, ainda com aquele cabelo úmido de poodle.

A porta do lado fechou. Eu sacudi a cabeça, perplexo. Essa merda seria um sonho? Não era. Fiquei paralisado na cadeira de plástico por mais uma hora. Quer dizer que eu comia pimentão e a vizinha de baixo comia o cu da vizinha do lado? Uau, o prédio não era fantasma afinal. Mas assustava.

Fui ao banheiro, tomei um ducha, escovei os dentes e voltei ao meu quarto. Só me restava
dormir. O silêncio, senhor de quase todas as horas, estava lá novamente. Mas eu tinha algo a fazer. Levantei da cama, fiz uma pose ninja e bati os pés no chão com força, repetidas vezes. E esmurrei a parede da vizinha do lado como se fosse um fã do Mike Tyson, repetidas vezes. Ambas tinham de estar acordadas agora.

Parei, contei até cinco e gritei em alto e bom som: "Vão tomar no meio dos seus cus!" Ninguém respondeu. Eu dormi como um anjo. E nunca mais ouvi uma metida naquele prédio.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Arrasto

Arrasto meu rastro
No fundo sou casto
Mas gasto
Mais gasto

Um dia me acho
Então um escracho
Quão baixo
Tão baixo

No fim terei rumo
Reto no prumo
Não sumo
Nunca sumo

Me arrasssssssssssssssssssssssto
Te arrassssssssssssssssssssssssto

Enquanto isso
Um lapso
Um rasgo
Todos ao caralho

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Intran...?

Minha vizinha chamou a polícia às 22h15 porque eu tava comendo pizza no domingo passado e bebendo um vinho chileno que me deixa alegre e vendo uma porra de um DVD e conversando sobre os rumos do universo. Éramos quatro mais o poodle.

_Seu guarda, desculpe, o senhor deveria estar prendendo bandidos. Eu só tô comendo pizza...

_É, eu sei, meu filho...

_E a senhora, cara vizinha, conhece a palavra intransigência?

_Intran...?

_I-n-t-r-a-n-s-i-g-ê-n-c-i-a.

_Você quer impressionar com esse papinho de advogado...

_É, advogado... Bom, vou entrar e comer mais pizza. Ela não fala minha língua, seu guarda...

_Eles estão numa festa, todos alcoolizados...

_Na minha casa eu bebo quando, quanto e o que eu quiser. Seu guarda, deixa eu falar no seu ouvido: ela vai te chamar quando eu estiver trepando, ok? Já anota o endereço que o senhor voltará sempre...

_...

_Você ri, não é? Adeus...

Entrei, fechei a porra do portão, voltei à pizza e ao vinho. Os amigos foram embora, obviamente. O DVD encheu o saco, obviamente. A vizinha seguiu no Fantástico ou algo fantástico do tipo. Enchi a taça e resolvi ser um bom menino: desliguei a TV. Mas toquei violão até as 3 horas, cantando alto para os males espantar.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Criança em Mim

Era eu, vivendo solto
Era você, na espera
De repente, éramos nós
Bailando
Livres
Sussurando naquela rua

Era eu, não fui mais
Era você, já não era
De repente, éramos nós
Sorrindo
Lindos
Uivando para nossas luas

Agora, o que somos?
Deixa-me ser seu
Deixa-me viver aí
Faz de mim esse ser
Pronto

Pois sendo seu
Sou mais eu
E, sendo seu
Eu...
Posso ser quem sempre quis
Quis assim!
Entregue
Criança
Feliz

E agora, que somos
Deixa de sofrer
Deixa eu te viver
Morre enfim o padecer
Ponto

Pois sendo assim
Serei mais seu
E, sendo minha
Nós...
Já não há querer que diz
Você quis assim!
Sossega
Criança
Em mim

Houve um inverno rigoroso

As letras congelaram

A mente descansou

Agora, já não mais

Tudo ferve, tudo ferve

Há um inferno saboroso

domingo, 13 de maio de 2007

O Pouco Que Sobrou*

Eu cansei de ser assim
Não posso mais levar
Se tudo é tão ruim
Por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou

Mas vou cantar
Pra não cair
Fingindo ser alguém
Que vive assim de bem

Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
O pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
E a vida se perdeu

Se existe Deus em agonia
Manda essa cavalaria
Que hoje a fé
Me abandonou

(*especialmente, por hoje, um texto de outro)

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Basta/Carta

Sou eu ali, no topo daquele cume
Lá longe, querendo ser distante
Mas, no fundo, sou eu perto
No fundo, somos nós juntos
Ou que sentido haveria?
Que sentido há?

Há o sentido de mudar
Há? Basta acreditar
Não. Basta querer
E deixar de temer
E se deixar levar
Ou o que resta? Ficar

Eu sempre baixei a cabeça
Era isso, medo de ser você
Mas é. Graças... é!
Cadê você, meu bem?
Olha minha montanha
Deixa eu olhar seu mar

Ninguém escolhe ninguém
Escolhe. Deixa de bobeira
Você escolheu a mim
Seus amigos sempre serão
Seus amigos, e assim
Serei seu, enfim

--

"São duas da manhã
Fecho meus olhos e não durmo
Fecho meus olhos e, virou rotina,
Vejo apenas você
Vejo seus olhos

Os olhos mais lindos, imensidão
Vejo seu sorriso, amplidão
Vejo sua timidez, meu porto
Vejo seu silêncio, meu torpor

Vejo esse invisível que faz
De você, indizível
A pessoa que tira meu sono
E me enche de vida

Se eu fecho meus olhos
E vejo tudo isso,
Pra que dormir?
Pra que trocar
O sonho pelo sono?

Essa não deveria ser
Uma carta tola,
Cheia de lugar-comum
Mas será. E é

Esse sentimento me revira
Tem tradução impossível
Tem pouca explicação
Mas será. E é

Gosto de você como quem
Encerra uma busca infinita
Como quem finaliza
Uma luta já perdida
Como quem celebra
O fato de você me ver

Quer saber: não dormirei
Acordado, sigo em frente
Sonhando, os meus dias
Já pertencem a você
Lua cheia, estrelada
Amanhecer e poente

Me mostro
Me dôo
Me vou
Pra que você nunca fuja de mim"


sábado, 5 de maio de 2007

Minha

Se eu vivo de sombra
Se eu vivo de luz
Por que você deduz
Que o que reluz
Não me cobra?

Se eu choro de dia
E à noite, feliz
Por que você diz
Que o que eu fiz
Não seguiria?

E por que você me habita?
E por que você hesita?

Porque sua vida, minha
Não é só sua, minha

Sua vida ainda cresce
Cresce, mas engatinha

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Pronto

Quero ser teu

Pleno, inteiro

Poeta, primeiro

Morar em teu porto

E acordar sonhando

Viver em delírios

Crescer em teus cílios

Te olhando de perto

Silenciosamente

Continuamente

Porque estou pronto

E ponto

Passionalidade

Jamais chorei assim
A casa foi inundada, submersa
Os móveis ficaram perdidos
Ninguém ousou se aproximar
O cachorro desistiu de latir
A luz entrou em curto e apagou
Até a chuva cessou, por piedade

Jamais corei assim
Na frente da tela, na espera
O riso ficou abafado, preso
Tive medo de me aproximar
O vigia olhou desconfiado
O elevador subiu, arrastando-se
A água acabou, pela sede insaciável

E entre o corado e o chorado
Entre o certo e o incerto
Houve o quê?

Sequer tempo houve
(Me ouve...)

Houve a quebra abrupta
A pontada aguda
O desejo de escolher de pronto

Pronto: está feito
(Me ouve...)

Vai-se o novo, sem efeito
Vai-se o novo, quase inteiro
Quase inteiro

Ah, lindo jeito racional
(Me ouve...)

Vê-se que o opção, na verdade
Foi nada mais que um arroubo
De pura passionalidade

sábado, 21 de abril de 2007

Encanto

Você faz com que eu te leve
A todos os lugares

Mesmo que seja proibido
Mesmo que seja tarde

Ainda que os dias voem
Ainda que as horas passem

Você passa
Eu descompasso

Você anda
Eu desando

Você se move
Eu congelo

Você é fogo
Eu só queimo

Você é o colo
Que eu quero

Que eu sonho
Que eu venero

E haverá canto
Para o sonhar

Enfim virar
Encanto